O sino da igreja da Carrapateira já correu mundo

[1]

 

Em junho de 1925 naufragou, ao largo do Cabo de São Vicente, um navio de carga com o enigmático nome de Waimate.

Foi construído em 1896, nuns estaleiros em Newcastle, no norte de Inglaterra, e o seu primeiro proprietário foi a New Zealand Shipping Company, uma companhia inglesa que navegava, entre outros destinos longínquos, para a Nova Zelândia, o que explica que o navio tenha sido batizado com o nome de um município, Waimate, da região de Canterbury, na ilha sul da Nova Zelândia.

Na sua última viagem partiu de Inglaterra com destino a Génova, para onde se dirigia quando naufragou.

Os destroços do naufrágio do Waimate deram à costa e a sua sineta foi aproveitada para sino da pequena igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Carrapateira, uma aldeia no concelho de Aljezur.

Ainda lá está:

[2][3][4]

 

O Waimate, numa fotografia que terá sido tirada, provavelmente, quando se encontrava num porto australiano ou neozelandês:

[5]

© John Oxley Library, State Library of Queensland

 

A conjetura de que o sino da igreja da Carrapateira seria proveniente de «algum barco» foi achada no livro Vozes de Bronze. Os sinos das Torres do Algarve, editado em 1947, de que é autor o padre José António Pinheiro e Rosa (p. 99).

 

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Praça de Espanha, em Lisboa

1-Praça de Espanha2low

© coisas [in]fungíveis

 

Praça: s. f., lugar público e amplo geralmente rodeado de edifícios e onde desembocam várias ruas; largo; rossio.

Praça (de Espanha): espaço urbano desarticulado e desconexo para a qual o Município elabora sucessivos planos que não conclui, mas vai parcialmente executando, ao mesmo tempo que o aproveita para resolver necessidades circunstanciais.

 

Um acaso da vida que proporcionou o encontro com a proprietária do Restaurante La Gondola, levou-me a querer saber um pouco mais sobre esse edifício no final da Avenida de Berna, cuja demolição é o destino provável, e, por extensão, sobre a Praça de Espanha.

O restaurante fica no atual número 64 da avenida que já foi Rua Martinho Guimarães[1], e passou a Rua de Berne, logo em novembro de 1910 em homenagem a uma das três cidades europeias que à data eram capitais de uma república (Berna, Paris e, desde 5 de outubro desse ano, Lisboa)[2].

O projeto do edifício será de 1928 e o seu autor o construtor Júlio Salustiano (?) Rodrigues[3]. Em 1929, na sequência do parecer do Conselho de Arte e Arquitetura da Câmara Municipal de Lisboa, o desenho da fachada principal foi alterado e substituído por este:

 

2-Arquivo Municipal de Lisboa - Obra 33604 - Proc 9523-SEC-PG-1928 - Folha 14

© Arquivo Municipal de Lisboa, Obra n.º 33604, processo n.º 9523/SEC/PG/1928, fl. 14

 

Que corresponde, no essencial, ao construído:

3-La Gondola

© coisas [in]fungíveis

 

Em 1934 o edifício era propriedade de Fernando António de Almeida e Silva Saldanha, médico e (então ainda, futuro) arqueólogo[4]. Será por seu intermédio que no processo de obra do edifício surge, em 1939, a sombra da demolição. Intimado a realizar as obras, periódicas e obrigatórias, de limpeza e conservação do prédio, requer a prorrogação do prazo para o efeito, invocando estar para aprovação «a planta definitiva daquela zona da cidade (Palhavã)»[5].

Ouvida a 1ª Repartição (Urbanização e Expropriações) da Direção dos Serviços de Urbanização e Obras da Câmara Municipal de Lisboa, esta confirma ser de «prever pelos estudos de urbanização efetuados para o local que o prédio do requerente venha a ser abrangido por melhoramentos», pelo que consideram ser de deferir o pedido de prorrogação de prazo[6].

Como se depreende da planta junta a esta informação, na qual o prédio está assinalado, o ser abrangido por melhoramentos é um eufemismo. O que se prevê é a demolição do edifício, tal como de muitos outros existentes na zona.

A planta mostra, no local da atual Praça de Espanha, edificado e arruamentos há muito desaparecidos.

 

4-Arquivo Municipal de Lisboa - Obra 33604 - Proc 14336-DSC-PG-1940 - Folha 4

© Arquivo Municipal de Lisboa, Obra n.º33604, processo n.º14336/DSC/PG/1940, fl.14

 

A zona, arrabaldina, não está muito documentada e pouca informação se encontra sobre o tecido urbano antigo[7]. O Guia de Portugal, editado em 1924, descreve assim o que hoje é a Praça de Espanha: «Passado o Palácio [de Palhavã], que esquina para a Azinhaga do Conde de Azambuja [arruamento hoje inexistente e substituído por uma escadaria], bifurca-se a estrada, em frente a um prédio brasonado, sendo o troço da dir. a estrada das Laranjeiras (…) e o da esq. o que segue em direção a Benfica. Continuando por esta e na sequência da linha elétrica, fica-nos à esquerda o Campo Desportivo de Palhavã (futebol), e a seguir, do mesmo lado, o antigo Hipódromo da Sociedade Hípica Portuguesa. A estr. atravessa pouco depois o viaduto da linha de cintura entre os apeadeiros do Rego e das Laranjeiras. O lugar de Sete Rios surge então (…)»[8].

Norberto Araújo interrompe as suas peregrinações nesta zona da cidade «na confluência de Palhavã e Rego» tendo diante de si «a nova Avenida Columbano Bordalo Pinheiro, já edificada em grande parte, e aberta em 1929, a antiga Estrada de Benfica, por onde corre a linha dos elétricos, e a também antiga Estrada das Laranjeiras»[9][10]. Ou seja, no final da Avenida Santos Dumont, paralela, para norte, à Avenida de Berna.

As fotografias do Arquivo Fotográfico Municipal permitem ter uma ideia de como era a Palhavã, em duas épocas distintas, antes de se tornar Praça de Espanha:

 

6-PT-AMLSB-PAG000743_Estrada das Laranjeiras, freguesia Nossa Senhora de Fátima [19-...]_autor-Paulo Guedes

© Arquivo Municipal de Lisboa (PT/AMLSB/PAG000743_Estrada das Laranjeiras, freguesia Nossa Senhora de Fátima [19-…] Autor-Paulo Guedes)

 

5-PT-AMLSB-FMC000023_Estrada de Benfica [19...] autor Firmino Marques da Costa

© Arquivo Municipal de Lisboa (PT/AMLSB/FMC000023_Estrada de Benfica [19…] Autor Firmino Marques da Costa)

 

O melhoramento da zona de Palhavã e a substituição dos antigos eixos de saída da cidade aí existentes pela Praça de Espanha e pela atual Avenida dos Combatentes, é um projeto antigo.

Muito mais antigo do que o referido nos antecedentes dos Termos de Referência da Unidade de Execução da Praça de Espanha, onde se diz que o local «(…) tem sido, ao longo dos anos, objeto de sucessivos planos e estudos de ordenamento que remontam à década de 80» do século XX[11].

Uma pesquisa no Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa revela muitas (mais) décadas de projetos para o local.

Para além dos estudos de urbanização efetuados por Cristino da Silva, ao serviço da Câmara Municipal de Lisboa a partir de 1927[12], de que o excerto de desenho abaixo, existente no processo de obra do edifício do restaurante La Gondola, será um exemplo, muitos outros planos e projetos houve, antes e depois.

 

7-Arquivo Municipal de Lisboa - Obra 33604 - Proc 48104-DSC-PG-1940 - Folha 5

© Arquivo Municipal de Lisboa, Obra n.º33604, processo n.º48104/DSC/PG/1940, fl.5

 

A começar pelo estudo de Frederico Ressano Garcia, de 1903, para uma avenida ligando o extremo norte da Avenida António Augusto de Aguiar com o desvio da Estrada Militar, próximo do Paço do Lumiar. Passando pelo projeto de urbanização de Palhavã, Campolide, Sete Rios e Palma de Cima, de 1950, do arquiteto Raúl Chorão Ramalho e pelo Estudo base da praça de Espanha e prolongamento da avenida António Augusto de Aguiar, Palhavã e Sete Rios, de 1957 da autoria do engenheiro civil Vasco Manuel de Sá Marques Leite e do arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Teles. Até ao Projeto da Praça de Espanha do arquiteto Álvaro Siza, com vários estudos e propostas elaborados entre 1990 e 1996, este sim mencionado nos antecedentes dos Termos de Referência da Unidade de Execução da Praça de Espanha.

A lentidão da transformação da velha Palhavã na nova Praça de Espanha, e a sucessão de planos que foram sendo produzidos, teve por consequência, inevitável, que decisões que à data em que foram tomadas seriam consensuais, ou pelo menos aceitáveis, hoje são questionáveis.

Exemplo disso é a demolição do edifício do restaurante La Gondola, não particularmente notável. O edifício foi propriedade do Município de Lisboa, que o terá adquirido (o processo de obra assim o indicia), como alternativa à expropriação e com o objetivo de o demolir no âmbito da execução de um plano urbanístico (dos muitos que se sucederam). No entanto, tardando a concretização do(s) plano(s) que obrigaria(m) à sua demolição e estando o prédio arrendado, ou seja, utilizado, minimamente conservado e a produzir rendimento, não se demoliu.

Em 1939 quando é suscitada pela primeira vez no processo de obra do edifício a eventualidade da sua demolição, subsistiam nas Avenidas Novas a maior parte das casas emblemáticas do período áureo da encomenda aspiracional da nova burguesia endinheirada[13], que depois seriam sucessivamente demolidas[14]. Na Avenida de Berna existia ainda a Casa de Mário Antagão, projetada em 1906, por Norte Júnior para o gaveto com a Avenida da República (demolida em 1953)[15].

Mantinham-se também de pé as restantes oito moradias inventariadas na Avenida de Berna por Raquel Henriques da Silva, na sua tese de mestrado dedicada às Avenidas Novas[16]. Deste total de nove moradias[17], sete foram demolidas entre 1949 e 1979[18]. As duas que subsistiam na data do estudo de Raquel Henriques da Silva (1985), existem ainda. Uma é a Casa de Amélia Pereira Leite, no gaveto da Avenida de Berna com a Avenida da República fronteiro àquele em que se situava a Casa de Mário Antagão, e como esta projetada por Norte Júnior, e onde está hoje instalada a Junta de Freguesia das Avenidas Novas[19]. A outra é uma moradia com elementos decorativos ao estilo “Casa Portuguesa”, em estado avançado de degradação, e que na data do estudo de Raquel Henriques da Silva tinha já uma «autorização de reconstrução» concedida em 1972[20].

Neste contexto de substituição acelerada de edifícios que foi a realidade das Avenidas Novas sobretudo a partir da segunda metade do século XX, a demolição de um edifício como o do restaurante La Gondola não seria controversa.

Como não controversa, ou pelo menos aceite como moderna, era a substituição de construções existentes, de pequena escala, por novos edifícios com tipologias e densidades de ocupação planeadas para um futuro de crescimento económico e demográfico.

Hoje, no entanto, a situação é muito diferente.

Não só o futuro não se apresenta tão linearmente como um horizonte de crescimento ininterrupto justificativo, por si só, de mais, sempre mais, construção nova em grande escala, como a modesta moradia do restaurante La Gondola com a sua «discreta gramática compositiva e decorativa própria das divulgações da “Casa Portuguesa”, [embora] bastante empobrecidas em relação às propostas iniciais de Raúl Lino»[21] [22], pelo facto de ter chegado, solitária e inalterada, até hoje, assume uma inesperada importância.

E, assim, aquilo que já foi um edifício dispensável, de qualidade inferior a outros desaparecidos ou em vias de desparecer, tem hoje um valor adicional de memória urbana, cujo apagamento não devia passar sem discussão.

 

Notas e referências bibliográficas:

A definição de praça, no início do texto, foi retirada do Dicionário da Língua Portuguesa, 2003 (Porto Editora, 2002. ISBN972-0-01056-8).

A descrição da Praça de Espanha como uma «estrutura urbana desarticulada e desconexa» é dos Termos de Referência da Unidade de Execução da Praça de Espanha, (Introdução, p. 3).

 

[1] Vereador municipal ligado ao plano de Ressano Garcia para as Avenidas Novas (SILVA, Raquel Henriques da. – Das Avenidas Novas à Avenida de Berna. Revista de História de Arte, 2 (2006), pp. 126-141. ISSN: 1646-1762 (p. 135)).

[2] A toponímia desta zona anteriormente à implantação da República homenageava, em algumas das vias principais, técnicos da Câmara Municipal de Lisboa ligados ao Plano das Avenidas Novas. É o caso da Avenida Ressano Garcia, que em 1910 passa a Avenida da República, da Avenida António Maria de Avelar que, na mesma data, passa a Avenida Cinco de Outubro e desta Avenida de Berna (informação retirada da tese de mestrado de Raquel Henriques da Silva (p. 51), referência, abaixo, na nota 16). Ressano Garcia teve, em 1929, o seu nome atribuído ao eixo central do Bairro Azul e António Maria Avelar voltou a ter nome de rua em 1971, numa zona periférica da cidade, quase na fronteira de Alcântara com a Ajuda e numa rua sem importância (um impasse, perpendicular à Rua do Cruzeiro). Martinho Guimarães foi esquecido e não voltou a ter o nome atribuído a uma rua (cf. http://www.cm-lisboa.pt/toponimia).

[3] Arquivo Municipal de Lisboa, Obra n.º 33604, processo n.º 9523/SEC/PG/1928.

[4] Fernando António de Almeida e Silva Saldanha, conhecido nos meios arqueológicos como Fernando de Almeida, licenciou-se em medicina em 1927 profissão que exerceu durante vários anos. Em 1954, com 51 anos termina a licenciatura em história, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, doutorando-se com 59 anos, na mesma faculdade onde seria também docente. De 1967 a 1972 foi diretor do Museu Etnológico, atual Museu Nacional de Arqueologia (informação retirada daqui).

[5] Requerimento do proprietário a fls. 1 do processo n.º 53966/39, Obra n.º 33604, Arquivo Municipal de Lisboa.

[6] Parecer da 1ª Repartição de 1 de maio de 1940, a fls. 3 do processo n.º 53966/39, Obra n.º 33604, Arquivo Municipal de Lisboa.

[7] Há bastante informação, no entanto, sobre o edifício antigo mais notável da zona, o Palácio de Palhavã, e sobre o Jardim Zoológico e a Feira Popular que estiveram instalados no parque onde hoje fica a Fundação Calouste Gulbenkian, o primeiro de 1884 a 1905 (ARAÚJO, Norberto – Peregrinações em Lisboa, XIV Volume. Lisboa: Vega, 1993 [1ª ed. 1939]. ISBN: 972-699-346-6. (p. 55)) e a segunda de 1943 a 1947 (CALADO, Maria, FERREIRA, Vítor Matias – Lisboa, freguesia de S. Sebastião da Pedreira. Lisboa, Contexto Editora, 1993. ISBN 972-575-117-5 (p. 35)).

[8] AA. VV., Guia de Portugal, 1º volume, Generalidades ― Lisboa e Arredores. S. l.: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988 [1ª ed. 1924] (p. 433).

[9] ARAÚJO, 1993 [1ª ed. 1939] (p. 57-58).

[10] Marina Tavares Dias (DIAS, Marina Tavares. – Lisboa Desaparecida, vol. 3. Quimera Editores, Lisboa, 1992. ISBN 972-589-039-6 (p. 175)) designa a estrada que vai para Benfica (a da esquerda, na descrição do Guia de Portugal), como Estrada de Palhavã, da qual restará segundo a autora, o primeiro troço com a designação de Rua Dr. Nicolau Bettencourt. Ainda segundo esta autora, a mesma via a partir de Sete Rios tomava o nome de Estrada de Benfica. Que a Estrada de Palhavã ia para além da zona da “confluência” da Palhavã e do Rego, ou seja, para além da bifurcação referida pelo Guia de Portugal, o Levantamento da Planta de Lisboa 1904-1911, planta 9L, parece confirmar (PORTUGAL. Câmara Municipal de Lisboa – Levantamento da Planta de Lisboa: 1904-1911. S.l.: Câmara Municipal de Lisboa-Direção Municipal de Cultura-Arquivo Municipal de Lisboa, 2005. ISBN 972-8517-41-6 (p. 155)).

[11] Termos de referência da Unidade de Execução da Praça de Espanha (Antecedentes, p. 6).

[12] RODOLFO, João de Sousa. – Luís Cristino da Silva e a arquitetura moderna em Portugal. Lisboa: Publicações D. Quixote, 2002. ISBN 972-20-2192-3 (p. 173 e pp.178 a 182).

[13] SILVA, 2006 (p. 136).

[14] Incluindo alguns Prémio Valmor, como a casa projetada por Norte Júnior para o n.º 36 da Avenida da República (prémio Valmor 1908), demolida em 1949-1950 (BAIRRADA, Eduardo Martins – Prémio Valmor 1902-1952. S. l.: Ed. de Manuela Rita de Azevedo Martins Bairrada, 1988)

[15] SILVA, Raquel Henriques da. – Lisboa, 1900 As avenidas novas e o arquiteto Norte Júnior. Colóquio Artes. Revista Trimestral de Artes Visuais, Música e Bailado, 73 (junho 1987) pp. 53-63. (p. 55 e p. 58).

[16] SILVA, Raquel Henriques da. – As Avenidas Novas de Lisboa, 1900-1930. Tese de Mestrado em História da Arte, Universidade Nova de Lisboa, 1985 (policopiado). (pp. 290-293).

[17] Nessas nove moradias não estão incluídas a do restaurante La Gondola, nem as duas outras casas que ocupavam a mesma frente de quarteirão para a Avenida de Berna, já demolidas.

[18] SILVA, 1985 (pp. 289-292).

[19] O edifício foi classificado como imóvel de interesse público em 1983 (pelo Decreto nº31/83, de 9 de maio) e um resumo da sua  história encontra-se aqui.

[20] SILVA, 1985 (p. 289).

[21] SILVA, 2006 (p. 136).

[22] Uma curiosidade dos elementos decorativos do restaurante La Gondola é a autoria do desenho de um painel de azulejos representando um janelão gótico, atribuída como provável a Cristino da Silva, por João de Sousa Rodolfo (RODOLFO, 2002, p. 243). Existem, de facto, no restaurante, dois painéis de azulejo que representam janelões góticos, são mencionados por Teresa Saporiti (SAPORITI, Teresa. – Azulejos de Lisboa do século XX. Porto, Edições Afrontamento, 1992. ISBN 972-36-0199-0 (pp. 20-21)), que atribui a sua autoria a Maria de Portugal, artista que foi companheira e trabalhou com Leopoldo Battistini, não fazendo Teresa Saporiti qualquer referência a uma hipotética autoria de Cristino da Silva. Os dois painéis estão assinados «Fca. Battistini de Maria de Portugal».

 

 

apareceu, monforte, mosaico romano com figuras… há setenta anos

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© Ministério da Educação e Ciência _ Arquivo Histórico do Ministério da Educação

As ruínas romanas da Herdade de Torre Palma foram descobertas por acaso, fez no passado mês de março 70 anos.

Manuel Heleno, em artigo publicado n’ O Arqueólogo Português em 1962, recorda assim a descoberta: no mês de março de 1947, um moço de lavoura encontrou, quando andava lavrando, uma villa com ricos mosaicos, no sítio de S. Domingos, 400 m a sul do monte de Torre de Palma e a 5 km de Monforte. O achado deu-se porque o arado emperrara num capitel e ao escavar-se este deu-se com um mosaico, que logo foi posto todo a descoberto[1].

Embora Manuel Heleno não o refira, o moço de lavoura que fez a descoberta chamava-se Joaquim Militão, mais conhecido por Joaquim do Inocêncio[2].

A notícia do achado, ainda segundo Manuel Heleno, deu brado, e chegou ao conhecimento do Diretor do Museu Etnológico (o próprio Manuel Heleno), que para ali se deslocou no dia 22 [de março de 1947], com o fim de acautelar as antiguidades descobertas e preparar escavações metódicas[3].

O telegrama aqui reproduzido, com carimbo dos CTT de 20 de março de 1947[4], anuncia precisamente a partida de Manuel Heleno para Monforte.

A herdade onde se deu o achado pertencia a João da Costa Falcão. Muitos anos depois da descoberta, o Estado adquiriu a parcela da herdade onde estão as ruinas da villa romana (uma parte dessa história está contada aqui).

Os dois mosaicos mais importantes encontrados e logo levados para o então denominado Museu Etnológico (atual Museu Nacional de Arqueologia), o Mosaico das Musas e o Mosaico dos Cavalos, são desde 2006 Tesouros Nacionais[5].

A Villa lusitano-romana de Torre de Palma foi classificada como Monumento Nacional em 1970.

A memória da descoberta dos mosaicos ainda está viva em alguns habitantes da aldeia de Vaiamonte, a mais próxima das ruínas romanas. Falámos com três: Francisco Nisa (Chico Lourenço), Joaquim Nisa Canoa e António Clemente José, a quem agradecemos terem partilhado connosco as suas lembranças.

Aqui uma parte do que nos contaram:

Agradecemos também ao Senhor Joaquim Peixe, Presidente da Junta de Freguesia de Vaiamonte, que em reposta ao nosso contacto prontamente se disponibilizou para localizar quem ainda se pudesse lembrar e contar a descoberta dos mosaicos, e proporcionou o encontro.

 

Notas e referências bibliográficas
[1] HELENO, Manuel.– A «villa» lusitano-romana de Torre de Palma (Monforte). O Arqueólogo Português, 4 (1962) pp. 313-318.
[2] Manuel Heleno tomou nota, no seu caderno de campo, de vários detalhes práticos, como os nomes e moradas dos proprietários e rendeiros da herdade de Torre Palma e até da pensão onde terá ficado alojado em Monforte, mas nada anotou sobre o  trabalhador rural que fez a descoberta. A identificação deste como Joaquim Inocêncio consta de um artigo da autoria de António José Sardinha de Oliveira publicado em 1967 na revista Lavoura Portuguesa, de um artigo da autoria de Fernando de Almeida publicado n’ O Arqueólogo Português em 1970 e nos textos das fichas de inventário do Mosaico das Musas e do Mosaico dos Cavalos da base de dados MatrizNet. Conforme a informação transmitida pelos familiares daquele trabalhador rural, o seu nome era Joaquim Militão, e era conhecido por Joaquim do Inocêncio, por ser Inocêncio o nome do seu avô. Se fosse vivo teria 91 anos.
[3] HELENO, 1962
[4] Arquivo Histórico do Ministério da Educação (AHME), processo nº65, Cx. 202.
[5] Cf. parte final do nº3 do artigo 15.º da Lei de Bases do Património Cultural (Lei nº107/2001, de 8 de setembro) e Decreto nº19/2006, de 18 de julho, que classificou os mosaicos como de interesse nacional.

Fritz Lang

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Autor: Waldemar Franz Hermann Titzenthaler, c. 1923  (retirado daqui)

 

«(…) Lang revelou que, imediatamente depois de os Nazis subirem ao poder [janeiro de 1933], Goebbels o convidou para trabalhar no novo Ministério [da Propaganda e Cultura Popular].

Nunca antes tinha falado com Goebbels. “Ele disse-me” escreveu Lang mais tarde, “que muitos anos antes, ele e o Führer tinham visto o meu filme Metropolis numa cidade de província, e Hitler teria dito nessa altura que queria que eu fizesse filmes nazis”. Mas não mencionou que tinha acabado de proibir o mais recente filme de Lang, Das Testament des Dr. Mabuse, uma fantasia horrorosa de um paranóico que aspira a dominar o Mundo, o qual, conforme Lang declarou mais tarde, tinha algumas referências simbólicas a Hitler. Apesar desta proibição, que não foi mencionada, Goebbels desfez-se em amabilidades e ofereceu-lhe um lugar de futuro na produção cinematográfica. Lang declarou que tinha sangue judeu nas veias, ao que Goebbels respondeu que estava decidido a passar isso por alto em virtude dos serviços distintos de Lang durante a Primeira Guerra Mundial. Lang não pôde compreender por que é que se fazia uma excepção neste caso; conhecia muitos judeus que estavam a perder os empregos. Pediu vinte e quatro horas para pensar no assunto, regressou a casa, pediu a um amigo que lhe reservasse uma cama no comboio da noite para Paris (mas, é claro, não em nome de Lang) e abandonou o país, deixando a sua bela casa e a sua colecção de obras de arte entregues aos Nazis. Uma versão francesa completa de O Testamento do Dr. Mabuse, feita ao mesmo tempo que o original alemão, foi transportada clandestinamente para a França e aí exibida. Lang nunca mais regressou à Alemanha durante o regime de Hitler».

 

In Doctor Goebbels: His life and Death, de Roger Manvell e Heinrich Fraenkel (ed. de 1960), citado da página 131 da edição portuguesa, com o título Goebbels e tradução de Osvaldo Aguiar. Editorial Aster (sem data, mas anterior a 1972)

A informação resulta do testemunho do próprio Fritz Lang: «Lang confirmou pessoalmente estes pormenores a H. F. [Heinrich Fraenkel]. As palavras citadas podem encontrar-se em Kracauer From Calgari to Hitler (…) com a história do Testamento do Dr. Mabuse. Veja-se pag. 164 e 248-50» (p. 275, nota nº23 ao Cap. V).

Pontes de Aljezur

1.Aljezur

© Direção-Geral do Património Cultural _ Ministério da Cultura (autor não identificado)

 

2.Aljezur

© Coisas [in]fungíveis

 

Estas duas fotografias são tiradas da estrada, imediatamente antes do acesso à ponte sobre a ribeira de Aljezur. A ponte liga o núcleo urbano antigo da vila, junto ao Castelo, à parte nova, edificada depois do terramoto de 1 de novembro de 1755 que aqui, como em quase todo o litoral do Algarve, causou danos imensos.

A estrada, de Alcácer do Sal a Lagos, que hoje se designa Estrada Nacional 120[1], começou a ser construída no final do século XIX[2]. Substituiu uma outra estrada que de Lagos seguia para norte e seria provavelmente romana[3][4] e que, no século XII, integraria o caminho do Cabo de São Vicente a Alcácer do Sal[5].

A fotografia a preto e branco pertence ao acervo do SIPA[6], acessível aqui, sem indicação de autoria ou data. O estado do Castelo no topo da colina indica-nos que não será anterior a 1941, ano em que teve lugar o “restauro” daquele monumento pela Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, no âmbito das comemorações dos Centenários[7] . Existe ainda, no Castelo, o letreiro de propaganda dessa obra:

3.Aljezur

© Coisas [in]fungíveis

 

Também não será posterior a 1947 pois, numa outra fotografia do mesmo acervo, manifestamente tirada na mesma data (e também sem indicação de autoria), é visível parte de uma outra ponte, a ponte velha, situada a uns metros a jusante da atual, à esquerda na imagem:

4.Aljezur

© Direção-Geral do Património Cultural _ Ministério da Cultura (autor não identificado)

 

As duas pontes coexistiram sobre a ribeira de Aljezur entre 1932, data em que terá sido inaugurada a ponte atual, e 4 de março de 1947, dia em que uma forte cheia fez ruir a ponte antiga. Nesse dia (e nos seguintes) choveu violentamente por todo o país, havendo grandes cheias na região do Ribatejo e tendo o rio Guadiana registado a sua maior cheia no século XX[8].

Nos relatórios da Junta Autónoma de Estradas referentes aos períodos de 1927 a 1931 e 1931 a 1935 embora sejam mencionadas, em diversos pontos, as obras de construção e beneficiação da então E.N. 20-1ª, estrada que é considerada de grande valor económico por proporcionar uma ligação rápida entre Lagos e Lisboa e uma comunicação direta de Lagos com o seu hinterland[9], não é referida a construção de uma ponte em Aljezur. No entanto, como ambos os relatórios advertem, apenas são mencionadas as pontes mais importantes construídas ou melhoradas, nos períodos a que se referem[10][11]. A ponte nova sobre a ribeira de Aljezur seria uma obra de menor importância e não é mencionada. Como também não era mencionada a própria vila de Aljezur nos pontos principais do itinerário desta estrada constantes do Decreto n.º 16075, de 26 de outubro de 1928 e do Decreto-Lei n.º 34593, de 11 de maio de 1945.

A ponte velha era esta, numa fotografia de 1938, tirada debaixo de um dos arcos da ponte nova:

5.Aljezur

© ADPHA _ Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur (autor não identificado)

 

E aqui, em segundo plano:

6.Aljezur

© ADPHA _ Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur (autor não identificado)

 

Este postal ilustrado, que também não tem data, será anterior à década de 1920, pois não existe ainda o edifício da antiga Mercearia da Ponte, construído por essa época (bem visível junto à ponte do lado esquerdo, na primeira das imagens do acervo do SIPA) e que foi demolido, no meio de polémica, em 2013.

Embora por vezes dita romana, a ponte antiga seria de fundação medieval e certamente objeto de sucessivas (re)construções[12] [13].

Além desta ponte, de pedra, terá existido também uma ponte de madeira, atravessando a ribeira de Aljezur, como atesta o Dicionário de Cardoso, de 1747, cuja entrada referente a Aljezur diz «junto da vila tem uma ponte de pau, e a pouca distância outra de pedra»[14]..

A existência de uma ponte de pedra e de uma ponte de madeira é corroborada pelas Memórias Paroquiais de 1758 que mencionam uma ponte «a que chamam a ponte de pau que tem três colunas de pedra e sobre elas dois paus de largura de quatro palmos (…) e está no princípio da vila, e a outra desviada dela dois tiros de mosquete com dois arcos de pedra por onde passam carros e carruagens e tudo o mais que vem da parte do norte e vai para a cidade de Lagos»[15][16].

A ponte de pedra referida no Dicionário de Cardoso e nas Memórias Paroquiais será a ponte que as cheias derrubaram em 1947.

Da ponte de madeira não há vestígios, mas a sua memória manteve-se na toponímia, pois, como conta o Senhor José Marreiros da ADPHA _ Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur, a atual Rua João Dias Mendes era anteriormente designada Rua da Ponte de Pau.

Vestígios da ponte de pedra encontrou a investigadora Sandra Rodrigues num restaurante junto à margem da ribeira, no local da ponte antiga. Eram «alguns blocos de pedra bem aparelhados que terão pertencido à estrutura de uma antiga ponte que ali se encontrava»[17].

Já no último quartel do século XX, foi construída uma ponte pedonal, metálica, no local exato onde esteve a velha ponte de pedra.

7.Aljezur

© Coisas [in]fungíveis
Os autores agradecem ao Senhor José Marreiros, da ADPHA _ Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur, a cedência das imagens da ponte antiga e as informações fornecidas sobre a toponímia e sobre a data de inauguração da atual ponte rodoviária e de construção da ponte pedonal metálica.

 

Notas e referências bibliográficas:

[1] Com o Decreto n.º 16075, 26 de outubro de 1928, a estrada ligando Alcácer do Sal e Lagos passou a identificar-se com o n.º 20, 1ª classe. Com o Decreto-Lei n.º 34593, de 11 de maio de 1945, que aprovou o primeiro Plano Rodoviário, passou a identificar-se com o n.º 120, que ainda mantém.

[2] CARNEIRO, Maria Isabel S. – As casas de cantoneiros do Algarve: da conservação das estradas a património a conservar. Lisboa: Universidade Aberta, 2011, vol. 1, 183 pp. Dissertação de Mestrado em Estudos do Património (policopiada) (p. 95).

[3] MANTAS, Vasco Gil – Os caminhos da serra e do mar, In Noventa séculos entre a serra e o mar. Lisboa: Instituto Português do Património Arquitetónico, 1997. ISBN: 972-8087-31-4 (p. 319).

[4] RODRIGUES, Sandra – As vias Romanas do Algarve. S. l.: Centro de Estudos de Património da Universidade do Algarve/Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, 2004. Depósito legal: 208014/04. (p. 74)

[5] MANTAS, 1997 (p. 321).

[6] Sistema de informação criado no âmbito da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), tendo por base o arquivo desta. Com a extinção da DGEMN, em 2007, passou para o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), e atualmente está integrado na Direção Geral do Património Cultural (DGPC).

[7] 1140-1940, 8º centenário da fundação da nacionalidade; 1640-1940, 3º centenário da restauração da independência.

[8] RAMOS, Catarina e REIS, Eusébio – As cheias no sul de Portugal em diferentes tipos de bacias hidrográficas. Finisterra, XXXVI, 2001 (pp. 61-62).

[9] PORTUGAL. Ministério das Obras Públicas e Comunicações. Junta Autónoma de Estradas – Relatório referente à gerência de 1 de julho de 1931 a 31 de dezembro de 1935. Lisboa, Junta Autónoma de Estradas, 1936 (p. 46).

[10] PORTUGAL. Ministério do Comércio e Comunicações. Junta Autónoma de Estradas – Relatório referente à gerência dos anos económicos 1927-28 a 1930-31. Lisboa, Junta Autónoma de Estradas, 1931, (pp. 68-73).

[11] PORTUGAL, 1936 (p. 55).

[12] BERNARDES, João Pedro – Existem Pontes Romanas no Algarve? In Atas das I Jornadas As vias do Algarve, da época romana à atualidade. S. l.: Câmara Municipal de São Brás de Alportel/ Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, 2006. Depósito legal: 251029/06. (p. 14).

[13] http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/index.php?sid=home

[14] CARDOSO, Luiz (Pde.) — Dicionário Geográfico ou notícia histórica de todas as cidades, vilas, lugares e aldeias, rios, ribeiras, e serras dos Reinos de Portugal e Algarve com todas as coisas raras, que neles se encontram, assim antigas como modernas. Tomo I, Lisboa: MDCCXLVII [1747] (p. 312).

[15] MENDES, Isabel Maria Ribeiro – Aljezur, Bordeira, Carrapateira e Odeceixe em 1758. Memórias Paroquiais. Espaço Cultural, 5 (1990) pp. 29-46. Depósito legal PT-15 147/87. (p. 40)

[16] O mosquete foi inventado no século XV com um alcance de tiro de cerca de 100 metros, vulgarizando-se nos finais do século XVIII, modelos mais sofisticados com alcance de tiro de 200 metros (COUTO, Bruno Aguiar. – A influência do mosquete na arte militar. Lisboa: Academia Militar, Direção de Ensino, Curso de Infantaria, 2008, 88 pp. Trabalho de Investigação Aplicada (policopiado) (pp. 3 e 5)). O tiro de mosquete é uma medida de distância obviamente imprecisa. Como não é provável que as Memórias Paroquiais de 1758 referentes a Aljezur refletissem as inovações tecnológicas mais recentes da arma, poderá assumir-se que o tiro de mosquete nelas referido corresponderia à distância aproximada de 100 metros. Portanto, a ponte de pau e a ponte de pedra distariam entre si cerca de 200 metros – dois tiros de mosquete – o que também é concordante com a «pouca distância» indicada no Dicionário de Cardoso.

[17] RODRIGUES, 2004, p. 74 (nota de rodapé).

Soldado francês ajuda uma família fugida da Guerra Civil de Espanha

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A French soldier helps a family fleeing from the Spanish civil war (c. 1938). © Getty Images (autor desconhecido)

 

Contou o jornal Público (ed. de 28 de abril de 2016) que um dos temas que o historiador Fernando Rosas abordou na sua “Última Lição”, foi a desmemória. A criação artificial de um «ambiente de “presente contínuo”, que significa “uma forma de manipulação da memória” pelo “apagamento de acontecimentos, de processos históricos e de valores que transportem do passado um potencial subversor da nova ordem que se pretende estabelecer”. “Uma espécie de amoralismo paralisante” que inculca “a aceitação acrítica da lei do mais forte, da injustiça social” (…)».

Tempos depois de ler estas palavras, encontrei, por acaso, um artigo antigo intitulado Portugueses nos campos do sudoeste de França (1939-1940), da autoria de Cristina Clímaco, publicado na revista Penélope, fazer e refazer a História (n.º 16 (1995), pp. 26-61).

Os campos do título são os campos de internamento (campos de concentração na linguagem da época) onde, em França, foram colocados aqueles que fugiam das tropas de Franco vitoriosas em Espanha. Maioritariamente espanhóis, civis e militares, mas também Internacionais, entre eles portugueses (não houve só Viriatos na Guerra Civil de Espanha, também houve portugueses nas Brigadas Internacionais). A dado passo a autora diz: «O avanço do exército franquista e a consequente queda de Barcelona em 26 de janeiro de 1939 provocam a fuga da população civil e a retirada em direção à fronteira francesa dos exércitos republicanos. O governo francês, face à situação, abre a fronteira em 28 de janeiro, permitindo a entrada da população civil e a 5 de fevereiro a dos militares (…). Os refugiados continuam a chegar a França até ao dia 13, altura em que passam a fronteira os últimos soldados do exército da Região Oriental. Entre 28 de janeiro e 13 de fevereiro entram em França (…) c. 500 mil refugiados». Meio milhão de pessoas em 15 dias.

Reavivar a memória destes números podia, talvez, ajudar a contrariar o nosso amoralismo presente que nos leva a aceitar, de boa ou má vontade, como novo normal, as fronteiras fechadas a quem foge da guerra, da fome ou de ambas.