Praça de Espanha, em Lisboa

1-Praça de Espanha2low

© coisas [in]fungíveis

 

Praça: s. f., lugar público e amplo geralmente rodeado de edifícios e onde desembocam várias ruas; largo; rossio.

Praça (de Espanha): espaço urbano desarticulado e desconexo para a qual o Município elabora sucessivos planos que não conclui, mas vai parcialmente executando, ao mesmo tempo que o aproveita para resolver necessidades circunstanciais.

 

Um acaso da vida que proporcionou o encontro com a proprietária do Restaurante La Gondola, levou-me a querer saber um pouco mais sobre esse edifício no final da Avenida de Berna, cuja demolição é o destino provável, e, por extensão, sobre a Praça de Espanha.

O restaurante fica no atual número 64 da avenida que já foi Rua Martinho Guimarães[1], e passou a Rua de Berne, logo em novembro de 1910 em homenagem a uma das três cidades europeias que à data eram capitais de uma república (Berna, Paris e, desde 5 de outubro desse ano, Lisboa)[2].

O projeto do edifício será de 1928 e o seu autor o construtor Júlio Salustiano (?) Rodrigues[3]. Em 1929, na sequência do parecer do Conselho de Arte e Arquitetura da Câmara Municipal de Lisboa, o desenho da fachada principal foi alterado e substituído por este:

 

2-Arquivo Municipal de Lisboa - Obra 33604 - Proc 9523-SEC-PG-1928 - Folha 14

© Arquivo Municipal de Lisboa, Obra n.º 33604, processo n.º 9523/SEC/PG/1928, fl. 14

 

Que corresponde, no essencial, ao construído:

3-La Gondola

© coisas [in]fungíveis

 

Em 1934 o edifício era propriedade de Fernando António de Almeida e Silva Saldanha, médico e (então ainda, futuro) arqueólogo[4]. Será por seu intermédio que no processo de obra do edifício surge, em 1939, a sombra da demolição. Intimado a realizar as obras, periódicas e obrigatórias, de limpeza e conservação do prédio, requer a prorrogação do prazo para o efeito, invocando estar para aprovação «a planta definitiva daquela zona da cidade (Palhavã)»[5].

Ouvida a 1ª Repartição (Urbanização e Expropriações) da Direção dos Serviços de Urbanização e Obras da Câmara Municipal de Lisboa, esta confirma ser de «prever pelos estudos de urbanização efetuados para o local que o prédio do requerente venha a ser abrangido por melhoramentos», pelo que consideram ser de deferir o pedido de prorrogação de prazo[6].

Como se depreende da planta junta a esta informação, na qual o prédio está assinalado, o ser abrangido por melhoramentos é um eufemismo. O que se prevê é a demolição do edifício, tal como de muitos outros existentes na zona.

A planta mostra, no local da atual Praça de Espanha, edificado e arruamentos há muito desaparecidos.

 

4-Arquivo Municipal de Lisboa - Obra 33604 - Proc 14336-DSC-PG-1940 - Folha 4

© Arquivo Municipal de Lisboa, Obra n.º33604, processo n.º14336/DSC/PG/1940, fl.14

 

A zona, arrabaldina, não está muito documentada e pouca informação se encontra sobre o tecido urbano antigo[7]. O Guia de Portugal, editado em 1924, descreve assim o que hoje é a Praça de Espanha: «Passado o Palácio [de Palhavã], que esquina para a Azinhaga do Conde de Azambuja [arruamento hoje inexistente e substituído por uma escadaria], bifurca-se a estrada, em frente a um prédio brasonado, sendo o troço da dir. a estrada das Laranjeiras (…) e o da esq. o que segue em direção a Benfica. Continuando por esta e na sequência da linha elétrica, fica-nos à esquerda o Campo Desportivo de Palhavã (futebol), e a seguir, do mesmo lado, o antigo Hipódromo da Sociedade Hípica Portuguesa. A estr. atravessa pouco depois o viaduto da linha de cintura entre os apeadeiros do Rego e das Laranjeiras. O lugar de Sete Rios surge então (…)»[8].

Norberto Araújo interrompe as suas peregrinações nesta zona da cidade «na confluência de Palhavã e Rego» tendo diante de si «a nova Avenida Columbano Bordalo Pinheiro, já edificada em grande parte, e aberta em 1929, a antiga Estrada de Benfica, por onde corre a linha dos elétricos, e a também antiga Estrada das Laranjeiras»[9][10]. Ou seja, no final da Avenida Santos Dumont, paralela, para norte, à Avenida de Berna.

As fotografias do Arquivo Fotográfico Municipal permitem ter uma ideia de como era a Palhavã, em duas épocas distintas, antes de se tornar Praça de Espanha:

 

6-PT-AMLSB-PAG000743_Estrada das Laranjeiras, freguesia Nossa Senhora de Fátima [19-...]_autor-Paulo Guedes

© Arquivo Municipal de Lisboa (PT/AMLSB/PAG000743_Estrada das Laranjeiras, freguesia Nossa Senhora de Fátima [19-…] Autor-Paulo Guedes)

 

5-PT-AMLSB-FMC000023_Estrada de Benfica [19...] autor Firmino Marques da Costa

© Arquivo Municipal de Lisboa (PT/AMLSB/FMC000023_Estrada de Benfica [19…] Autor Firmino Marques da Costa)

 

O melhoramento da zona de Palhavã e a substituição dos antigos eixos de saída da cidade aí existentes pela Praça de Espanha e pela atual Avenida dos Combatentes, é um projeto antigo.

Muito mais antigo do que o referido nos antecedentes dos Termos de Referência da Unidade de Execução da Praça de Espanha, onde se diz que o local «(…) tem sido, ao longo dos anos, objeto de sucessivos planos e estudos de ordenamento que remontam à década de 80» do século XX[11].

Uma pesquisa no Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa revela muitas (mais) décadas de projetos para o local.

Para além dos estudos de urbanização efetuados por Cristino da Silva, ao serviço da Câmara Municipal de Lisboa a partir de 1927[12], de que o excerto de desenho abaixo, existente no processo de obra do edifício do restaurante La Gondola, será um exemplo, muitos outros planos e projetos houve, antes e depois.

 

7-Arquivo Municipal de Lisboa - Obra 33604 - Proc 48104-DSC-PG-1940 - Folha 5

© Arquivo Municipal de Lisboa, Obra n.º33604, processo n.º48104/DSC/PG/1940, fl.5

 

A começar pelo estudo de Frederico Ressano Garcia, de 1903, para uma avenida ligando o extremo norte da Avenida António Augusto de Aguiar com o desvio da Estrada Militar, próximo do Paço do Lumiar. Passando pelo projeto de urbanização de Palhavã, Campolide, Sete Rios e Palma de Cima, de 1950, do arquiteto Raúl Chorão Ramalho e pelo Estudo base da praça de Espanha e prolongamento da avenida António Augusto de Aguiar, Palhavã e Sete Rios, de 1957 da autoria do engenheiro civil Vasco Manuel de Sá Marques Leite e do arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Teles. Até ao Projeto da Praça de Espanha do arquiteto Álvaro Siza, com vários estudos e propostas elaborados entre 1990 e 1996, este sim mencionado nos antecedentes dos Termos de Referência da Unidade de Execução da Praça de Espanha.

A lentidão da transformação da velha Palhavã na nova Praça de Espanha, e a sucessão de planos que foram sendo produzidos, teve por consequência, inevitável, que decisões que à data em que foram tomadas seriam consensuais, ou pelo menos aceitáveis, hoje são questionáveis.

Exemplo disso é a demolição do edifício do restaurante La Gondola, não particularmente notável. O edifício foi propriedade do Município de Lisboa, que o terá adquirido (o processo de obra assim o indicia), como alternativa à expropriação e com o objetivo de o demolir no âmbito da execução de um plano urbanístico (dos muitos que se sucederam). No entanto, tardando a concretização do(s) plano(s) que obrigaria(m) à sua demolição e estando o prédio arrendado, ou seja, utilizado, minimamente conservado e a produzir rendimento, não se demoliu.

Em 1939 quando é suscitada pela primeira vez no processo de obra do edifício a eventualidade da sua demolição, subsistiam nas Avenidas Novas a maior parte das casas emblemáticas do período áureo da encomenda aspiracional da nova burguesia endinheirada[13], que depois seriam sucessivamente demolidas[14]. Na Avenida de Berna existia ainda a Casa de Mário Antagão, projetada em 1906, por Norte Júnior para o gaveto com a Avenida da República (demolida em 1953)[15].

Mantinham-se também de pé as restantes oito moradias inventariadas na Avenida de Berna por Raquel Henriques da Silva, na sua tese de mestrado dedicada às Avenidas Novas[16]. Deste total de nove moradias[17], sete foram demolidas entre 1949 e 1979[18]. As duas que subsistiam na data do estudo de Raquel Henriques da Silva (1985), existem ainda. Uma é a Casa de Amélia Pereira Leite, no gaveto da Avenida de Berna com a Avenida da República fronteiro àquele em que se situava a Casa de Mário Antagão, e como esta projetada por Norte Júnior, e onde está hoje instalada a Junta de Freguesia das Avenidas Novas[19]. A outra é uma moradia com elementos decorativos ao estilo “Casa Portuguesa”, em estado avançado de degradação, e que na data do estudo de Raquel Henriques da Silva tinha já uma «autorização de reconstrução» concedida em 1972[20].

Neste contexto de substituição acelerada de edifícios que foi a realidade das Avenidas Novas sobretudo a partir da segunda metade do século XX, a demolição de um edifício como o do restaurante La Gondola não seria controversa.

Como não controversa, ou pelo menos aceite como moderna, era a substituição de construções existentes, de pequena escala, por novos edifícios com tipologias e densidades de ocupação planeadas para um futuro de crescimento económico e demográfico.

Hoje, no entanto, a situação é muito diferente.

Não só o futuro não se apresenta tão linearmente como um horizonte de crescimento ininterrupto justificativo, por si só, de mais, sempre mais, construção nova em grande escala, como a modesta moradia do restaurante La Gondola com a sua «discreta gramática compositiva e decorativa própria das divulgações da “Casa Portuguesa”, [embora] bastante empobrecidas em relação às propostas iniciais de Raúl Lino»[21] [22], pelo facto de ter chegado, solitária e inalterada, até hoje, assume uma inesperada importância.

E, assim, aquilo que já foi um edifício dispensável, de qualidade inferior a outros desaparecidos ou em vias de desparecer, tem hoje um valor adicional de memória urbana, cujo apagamento não devia passar sem discussão.

 

Notas e referências bibliográficas:

A definição de praça, no início do texto, foi retirada do Dicionário da Língua Portuguesa, 2003 (Porto Editora, 2002. ISBN972-0-01056-8).

A descrição da Praça de Espanha como uma «estrutura urbana desarticulada e desconexa» é dos Termos de Referência da Unidade de Execução da Praça de Espanha, (Introdução, p. 3).

 

[1] Vereador municipal ligado ao plano de Ressano Garcia para as Avenidas Novas (SILVA, Raquel Henriques da. – Das Avenidas Novas à Avenida de Berna. Revista de História de Arte, 2 (2006), pp. 126-141. ISSN: 1646-1762 (p. 135)).

[2] A toponímia desta zona anteriormente à implantação da República homenageava, em algumas das vias principais, técnicos da Câmara Municipal de Lisboa ligados ao Plano das Avenidas Novas. É o caso da Avenida Ressano Garcia, que em 1910 passa a Avenida da República, da Avenida António Maria de Avelar que, na mesma data, passa a Avenida Cinco de Outubro e desta Avenida de Berna (informação retirada da tese de mestrado de Raquel Henriques da Silva (p. 51), referência, abaixo, na nota 16). Ressano Garcia teve, em 1929, o seu nome atribuído ao eixo central do Bairro Azul e António Maria Avelar voltou a ter nome de rua em 1971, numa zona periférica da cidade, quase na fronteira de Alcântara com a Ajuda e numa rua sem importância (um impasse, perpendicular à Rua do Cruzeiro). Martinho Guimarães foi esquecido e não voltou a ter o nome atribuído a uma rua (cf. http://www.cm-lisboa.pt/toponimia).

[3] Arquivo Municipal de Lisboa, Obra n.º 33604, processo n.º 9523/SEC/PG/1928.

[4] Fernando António de Almeida e Silva Saldanha, conhecido nos meios arqueológicos como Fernando de Almeida, licenciou-se em medicina em 1927 profissão que exerceu durante vários anos. Em 1954, com 51 anos termina a licenciatura em história, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, doutorando-se com 59 anos, na mesma faculdade onde seria também docente. De 1967 a 1972 foi diretor do Museu Etnológico, atual Museu Nacional de Arqueologia (informação retirada daqui).

[5] Requerimento do proprietário a fls. 1 do processo n.º 53966/39, Obra n.º 33604, Arquivo Municipal de Lisboa.

[6] Parecer da 1ª Repartição de 1 de maio de 1940, a fls. 3 do processo n.º 53966/39, Obra n.º 33604, Arquivo Municipal de Lisboa.

[7] Há bastante informação, no entanto, sobre o edifício antigo mais notável da zona, o Palácio de Palhavã, e sobre o Jardim Zoológico e a Feira Popular que estiveram instalados no parque onde hoje fica a Fundação Calouste Gulbenkian, o primeiro de 1884 a 1905 (ARAÚJO, Norberto – Peregrinações em Lisboa, XIV Volume. Lisboa: Vega, 1993 [1ª ed. 1939]. ISBN: 972-699-346-6. (p. 55)) e a segunda de 1943 a 1947 (CALADO, Maria, FERREIRA, Vítor Matias – Lisboa, freguesia de S. Sebastião da Pedreira. Lisboa, Contexto Editora, 1993. ISBN 972-575-117-5 (p. 35)).

[8] AA. VV., Guia de Portugal, 1º volume, Generalidades ― Lisboa e Arredores. S. l.: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988 [1ª ed. 1924] (p. 433).

[9] ARAÚJO, 1993 [1ª ed. 1939] (p. 57-58).

[10] Marina Tavares Dias (DIAS, Marina Tavares. – Lisboa Desaparecida, vol. 3. Quimera Editores, Lisboa, 1992. ISBN 972-589-039-6 (p. 175)) designa a estrada que vai para Benfica (a da esquerda, na descrição do Guia de Portugal), como Estrada de Palhavã, da qual restará segundo a autora, o primeiro troço com a designação de Rua Dr. Nicolau Bettencourt. Ainda segundo esta autora, a mesma via a partir de Sete Rios tomava o nome de Estrada de Benfica. Que a Estrada de Palhavã ia para além da zona da “confluência” da Palhavã e do Rego, ou seja, para além da bifurcação referida pelo Guia de Portugal, o Levantamento da Planta de Lisboa 1904-1911, planta 9L, parece confirmar (PORTUGAL. Câmara Municipal de Lisboa – Levantamento da Planta de Lisboa: 1904-1911. S.l.: Câmara Municipal de Lisboa-Direção Municipal de Cultura-Arquivo Municipal de Lisboa, 2005. ISBN 972-8517-41-6 (p. 155)).

[11] Termos de referência da Unidade de Execução da Praça de Espanha (Antecedentes, p. 6).

[12] RODOLFO, João de Sousa. – Luís Cristino da Silva e a arquitetura moderna em Portugal. Lisboa: Publicações D. Quixote, 2002. ISBN 972-20-2192-3 (p. 173 e pp.178 a 182).

[13] SILVA, 2006 (p. 136).

[14] Incluindo alguns Prémio Valmor, como a casa projetada por Norte Júnior para o n.º 36 da Avenida da República (prémio Valmor 1908), demolida em 1949-1950 (BAIRRADA, Eduardo Martins – Prémio Valmor 1902-1952. S. l.: Ed. de Manuela Rita de Azevedo Martins Bairrada, 1988)

[15] SILVA, Raquel Henriques da. – Lisboa, 1900 As avenidas novas e o arquiteto Norte Júnior. Colóquio Artes. Revista Trimestral de Artes Visuais, Música e Bailado, 73 (junho 1987) pp. 53-63. (p. 55 e p. 58).

[16] SILVA, Raquel Henriques da. – As Avenidas Novas de Lisboa, 1900-1930. Tese de Mestrado em História da Arte, Universidade Nova de Lisboa, 1985 (policopiado). (pp. 290-293).

[17] Nessas nove moradias não estão incluídas a do restaurante La Gondola, nem as duas outras casas que ocupavam a mesma frente de quarteirão para a Avenida de Berna, já demolidas.

[18] SILVA, 1985 (pp. 289-292).

[19] O edifício foi classificado como imóvel de interesse público em 1983 (pelo Decreto nº31/83, de 9 de maio) e um resumo da sua  história encontra-se aqui.

[20] SILVA, 1985 (p. 289).

[21] SILVA, 2006 (p. 136).

[22] Uma curiosidade dos elementos decorativos do restaurante La Gondola é a autoria do desenho de um painel de azulejos representando um janelão gótico, atribuída como provável a Cristino da Silva, por João de Sousa Rodolfo (RODOLFO, 2002, p. 243). Existem, de facto, no restaurante, dois painéis de azulejo que representam janelões góticos, são mencionados por Teresa Saporiti (SAPORITI, Teresa. – Azulejos de Lisboa do século XX. Porto, Edições Afrontamento, 1992. ISBN 972-36-0199-0 (pp. 20-21)), que atribui a sua autoria a Maria de Portugal, artista que foi companheira e trabalhou com Leopoldo Battistini, não fazendo Teresa Saporiti qualquer referência a uma hipotética autoria de Cristino da Silva. Os dois painéis estão assinados «Fca. Battistini de Maria de Portugal».

 

 

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